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Finanças

Banco Central decreta a liquidação extrajudicial da Trustee e da Banvox

Levantamento da CVM revelado por Malu Gaspar mostra 126 processos contra Master, Reag e Trustee até fevereiro, o mais antigo de 2017; o BC diz que seguirá apurando para identificar responsáveis.

Capa do artigo Banco Central decreta a liquidação extrajudicial da Trustee e da Banvox
— Foto: Rafael Calventi / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Banco Central decreta a liquidação extrajudicial da Trustee e da Banvox, corretoras de São Paulo ligadas a Maurício Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master, por "graves violações das normas legais": a Banvox, fundada em 1984, administrava ao menos um fundo citado na Operação Carbono Oculto, que investiga lavagem de dinheiro para o crime organizado, e a Trustee prestava serviços ao Master — juntas, as duas tinham menos de 0,001% dos ativos do sistema financeiro e 0,76% dos recursos de terceiros

O Banco Central determinou na quinta-feira (3 de setembro) a liquidação extrajudicial da Trustee Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários e da Banvox Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, duas corretoras com sede em São Paulo. A Trustee tem histórico de ligação com Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master: após romper com Daniel Vorcaro, controlador do banco — que teve a liquidação decretada pelo BC no ano passado —, Quadrado assumiu o controle da Trustee, que prestava serviços ao Master. As informações são do G1.

Vorcaro foi preso no âmbito das investigações sobre supostas fraudes envolvendo a instituição e segue respondendo aos processos. A Banvox, também ligada a Quadrado, foi fundada em 1984, recebeu autorização da Comissão de Valores Mobiliários para administrar carteiras em 1991 e, desde 2016, concentra suas atividades na administração e custódia de fundos próprios; administrava ao menos um fundo citado na Operação Carbono Oculto, que investiga suposto esquema de lavagem de dinheiro e possíveis ligações com o crime organizado — operação que também teve como alvo a gestora Reag Investimentos, objeto de mandados de busca da Polícia Federal. Segundo o BC, as duas empresas tinham participação muito pequena no sistema: juntas, representavam menos de 0,001% dos ativos do Sistema Financeiro Nacional e administravam 0,76% dos recursos de terceiros. A liquidação extrajudicial é medida adotada pelo Banco Central para encerrar as atividades de uma instituição quando são identificadas irregularidades graves, sem necessidade de autorização judicial; a decisão foi motivada pela constatação de graves violações das normas legais que regem o funcionamento das duas instituições. Levantamento interno da CVM, revelado pela colunista Malu Gaspar, do O Globo, mostrou que, até fevereiro deste ano, Banco Master, Reag e Trustee eram alvos de 126 processos administrativos na autarquia — 47 envolvendo o Master, 77 a Reag e dois a Trustee —, com o mais antigo aberto em 2017 e boa parte das apurações ainda não concluída, apurando suspeitas de fraude e lavagem de dinheiro. O BC informou que continuará apurando o caso para identificar os responsáveis; dependendo do resultado, poderão ser aplicadas sanções administrativas, e o caso poderá ser encaminhado a outras autoridades.

O ecossistema do Master: como banco, gestora e corretoras formaram a maior fraude do sistema financeiro

A liquidação das duas corretoras é o capítulo mais recente de um desmonte que começou em novembro de 2025, quando o Banco Central liquidou o Banco Master após constatar que a instituição de Daniel Vorcaro vendia carteiras de crédito fictícias — consignado inexistente, precatórios superavaliados — a fundos de investimento, ao BRB, banco do Distrito Federal que quase o comprou, e a investidores atraídos por CDBs com juros de 140% do CDI garantidos pelo Fundo Garantidor de Créditos; o esquema, que a PF batizou de Compliance Zero, exigia uma rede de veículos para fabricar e distribuir os ativos, e é aí que entram a Reag — gestora que administrava fundos com as carteiras do Master e que a PF associou, na Carbono Oculto, à lavagem de dinheiro do PCC por meio de postos de combustível e fintechs —, a Trustee — corretora que custodiava e distribuía cotas dos fundos e prestava serviços ao banco — e a Banvox, que administrava fundos próprios, um deles citado na mesma operação. Maurício Quadrado, ex-sócio de Vorcaro que rompeu com ele antes da liquidação e assumiu a Trustee, é a figura que liga as peças: a Folha o perfilou nesta semana como o homem que ficou com a corretora quando a sociedade acabou, e sua relação com o Master é objeto de investigação. Os números do BC — menos de 0,001% dos ativos, 0,76% dos recursos de terceiros — mostram que as corretoras eram pequenas em tamanho e grandes em função: eram a tubulação por onde o dinheiro dos fundos entrava e saía do esquema. O levantamento da CVM, com 126 processos abertos desde 2017 e a maioria sem conclusão, é a outra face do caso — reguladores que viam sinais por quase uma década sem agir —, tema que o Senado, com a CPI do Master, e o STF, com a guerra entre Moraes e Mendonça, disputam explicar. Para o investidor comum, a lição é a que o FGC e o BC repetem: CDB com juro muito acima do mercado, fundo com ativo que ninguém audita e corretora sem histórico são a anatomia do prejuízo; para o sistema, é a evidência de que fiscalização por amostragem, como a da CVM, não alcança quem constrói a fraude como negócio.

Para , editor do portal, a liquidação das corretoras é limpeza tardia de um lodaçal conhecido. "O Master vendia crédito fictício a fundo administrado pela Reag, custodiado pela Trustee, com dinheiro que passava pela Banvox e por fundos ligados ao PCC — e a CVM tinha 126 processos abertos, o mais antigo de 2017, sem concluir. O Banco Central fechou o banco em novembro, a gestora em janeiro e as corretoras agora, em setembro; nove meses para tapar os canos de uma fraude que a PF chama de a maior da história. O portal registra e observa que Maurício Quadrado, sócio que 'rompeu' antes do naufrágio, ficou com a corretora — e agora ficou sem ela. Quem ainda tinha dinheiro ali sabia o risco ou não leu jornal", avalia.

Trustee: a corretora que ficou com Quadrado

DTVM paulista que prestava serviços de custódia e distribuição ao Master e aos fundos do ecossistema; após a ruptura entre Quadrado e Vorcaro, passou ao controle do primeiro; dois processos na CVM e agora liquidação por violações graves — o BC não detalhou quais, mas apura responsabilidades.

Banvox: quatro décadas e um fundo na Carbono Oculto

Fundada em 1984, autorizada pela CVM em 1991 para gerir carteiras, desde 2016 dedicada a fundos próprios; administrava fundo citado na operação que investiga lavagem para o crime organizado — a mesma que atingiu a Reag e postos de combustível ligados ao PCC; a ligação com Quadrado a colocou na mira do BC.

Liquidação extrajudicial: o que significa

Instrumento do Banco Central para encerrar instituições com irregularidades graves sem autorização judicial: nomeia liquidante, suspende operações, arrola credores e apura responsabilidade de administradores, que podem ter bens indisponíveis; é a mesma medida aplicada ao Master em novembro de 2025 e à Reag em janeiro.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, os 126 processos da CVM são o dado mais grave da notícia. "Quarenta e sete processos contra o Master, 77 contra a Reag, dois contra a Trustee, o mais antigo de 2017 — e a maioria sem conclusão em 2026, depois de o banco quebrar, a gestora ser liquidada e o dono estar preso. A CVM sabia, ou deveria saber, por nove anos. É o retrato de um regulador sem gente, sem orçamento e sem prioridade, que abre processo e não fecha. O portal registra a liquidação e pergunta o que o Senado deveria perguntar na CPI: quem na CVM olhou para 126 processos e decidiu esperar?", observa.

Maurício Quadrado: o ex-sócio

Sócio de Vorcaro no Master até romper antes da liquidação, assumiu a Trustee e é apontado como elo entre o banco e as corretoras; a Folha o perfilou nesta semana; ele não foi preso, e sua relação com as fraudes é objeto de apuração pelo BC, pela PF e pela CVM.

Carbono Oculto: a conexão com o crime organizado

Operação de 2025 contra lavagem de dinheiro do PCC por meio de postos de combustível, fintechs e fundos de investimento; a Reag foi alvo, e um fundo da Banvox é citado; a ligação entre o ecossistema do Master e o crime organizado é o aspecto que mais preocupa investigadores e que a CPI quer esclarecer.

Reag: a gestora liquidada em janeiro

Administrava fundos com carteiras do Master, foi alvo da Carbono Oculto e da segunda fase da Compliance Zero, teve a liquidação decretada em janeiro de 2026, e seu fundador, João Carlos Mansur, negocia delação com a PGR — enviada ao STF nesta semana — que aponta R$ 20 bilhões de Vorcaro.

Compliance Zero e a CPI: o que falta

A operação da PF contra as fraudes do Master está na segunda fase; a CPI no Senado ouve reguladores e investigados; o STF, com Mendonça como relator, decide sobre delações e sigilos; e o BC segue liquidando as peças do ecossistema — as corretoras de quinta são as menores e, por isso, as últimas.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a liquidação mostra o método do Banco Central. "Primeiro o banco, depois a gestora, agora as corretoras — o BC fecha o cerco de fora para dentro, peça por peça, com liquidante e apuração de responsabilidade em cada uma. É lento, é burocrático e é o único jeito de fazer sem que os responsáveis escapem por vício de forma. O portal registra as duas corretoras — pequenas em ativo, centrais em função — e observa que o caso Master, nove meses depois, ainda produz liquidação nova por semana. Não acabou; e os R$ 20 bilhões que Mansur promete localizar são a próxima página", analisa.

A liquidação extrajudicial da Trustee DTVM e da Banvox DTVM, corretoras paulistas ligadas a Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master, foi decretada pelo Banco Central em 3 de setembro de 2026 e noticiada pelo G1; segundo levantamento da CVM revelado pela colunista Malu Gaspar, Master, Reag e Trustee eram alvo de 126 processos administrativos na autarquia até fevereiro de 2026.

Fontes e referências

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