Nas barreiras às carnes brasileiras, o frango merece mais atenção que o boi
A queda de rebanhos nos EUA deixa a carne bovina tranquila; a Argentina, porém, aproveita cota chinesa, abertura americana e a fatia europeia que o Brasil perde, aponta a coluna Vaivém, de.
Nas barreiras às carnes brasileiras, o frango merece mais atenção que o boi: a suspensão europeia que entrou em vigor nesta quinta-feira atinge um setor bovino em que o Brasil tem fôlego — produção mundial de 62 milhões de toneladas, 12,4 milhões brasileiras contra 11,7 milhões americanas, e 31% das exportações globais, contra 24% em 2022 —, mas encontra na avicultura um concorrente novo e agressivo: a China, que deixou de ser importadora para virar exportadora de frango e já ampliou muito a participação no mercado europeu que fecha as portas ao produto brasileiro
Na imposição das barreiras às carnes brasileiras, como a que entrou em vigor nesta quinta-feira (3 de setembro) por parte da União Europeia, o Brasil precisa se preocupar mais com o frango do que com o boi: a concorrência internacional favorece a bovinocultura, mas deve ficar mais acirrada na avicultura. A análise é da coluna Vaivém, assinada pelo jornalista Mauro Zafalon, na Folha, de onde são as informações.
O cenário para a carne bovina brasileira é mais tranquilo devido à queda de rebanhos em produtores importantes, como os Estados Unidos, e à difícil recuperação no curto prazo; já no frango há concorrência forte vinda da China, que, de importadora, passou a exportadora nesse setor — o país asiático busca novos mercados com preços competitivos e aumentou muito a participação no mercado da União Europeia, que impõe amarras ao produto brasileiro. A produção mundial de carne bovina deve atingir 62 milhões de toneladas, segundo o Usda, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos; desse volume, 12,4 milhões têm origem no Brasil e 11,7 milhões nos Estados Unidos, os dois principais mercados mundiais. A União Europeia, que está deixando de comprar a carne brasileira enquanto o país não provar que parou de usar substâncias antimicrobianas na produção animal, tem rebanho em queda e elevados custos de produção, devido a insumos e pressões regulatórias; apesar de uma retração no consumo, o bloco vai continuar dependente de carne bovina. As exportações globais de carne bovina devem somar 13,8 milhões de toneladas neste ano, e 4,3 milhões saem do Brasil — com isso, o país aumenta a participação no mercado mundial para 31%, bem acima dos 24% de 2022. Com um dos principais rebanhos e ganhando produtividade nos anos recentes, o Brasil não deve ser ameaçado por outros produtores dentro de condições normais de mercado; pontualmente, como ocorre neste ano, pode ter evolução menor das exportações do que alguns concorrentes, como a Argentina, que encontrou situação favorável devido ao tamanho da cota recebida da China, à abertura maior do mercado dos Estados Unidos e à ocupação de parte da carne que os europeus não vão importar do Brasil.
Boi seguro, frango em risco: a geopolítica da proteína em que o Brasil é gigante — e a China virou rival
A distinção da coluna é a que o mercado precisa fazer nesta semana em que a suspensão europeia entrou em vigor e a Folha, o G1 e o InfoMoney registraram queda nas ações de JBS, Marfrig e Minerva e alta em BRF: no boi, o Brasil é imbatível por estrutura — o maior rebanho comercial do mundo, com 230 milhões de cabeças, ganho de produtividade por integração lavoura-pecuária e confinamento, custo de produção a pasto que nenhum concorrente iguala, e um ciclo pecuário americano no fundo, com rebanho no menor nível em 70 anos após secas e abates, o que mantém os Estados Unidos como importadores mesmo com a tarifa de 50% — e a União Europeia, que compra cerca de 5% do que o Brasil exporta, é mercado de nicho de alto valor, cuja perda temporária é absorvida pela China, pelo Oriente Médio e pelo próprio mercado americano, onde a carne brasileira entra pela cota e paga a sobretaxa ainda com lucro; no frango, o quadro é outro, porque a vantagem brasileira — milho e soja baratos, integração vertical de BRF, JBS/Seara e cooperativas do Sul, sanidade sem gripe aviária em escala comercial até 2025 — encontra pela primeira vez um concorrente com escala comparável e custo estatal: a China, que subsidiou a avicultura para substituir importações após a peste suína, tornou-se exportadora de frango processado com preço que o Brasil não alcança, e está ocupando justamente a Europa, mercado onde a cota brasileira de frango salgado e processado, negociada por décadas, vale bilhões. A barreira europeia por antimicrobianos — restrição a promotores de crescimento e antibióticos de uso preventivo, que a União Europeia proíbe internamente desde 2022 e agora exige dos fornecedores — é mais fácil de superar no boi, criado a pasto, do que no frango, produzido em galpões de alta densidade em que o uso de antimicrobianos é prática corrente; e enquanto o Brasil prova, a China e a Tailândia ocupam. A Argentina de Milei, que a coluna cita, é o competidor oportunista do boi: cota chinesa maior, abertura americana negociada com Trump e a fatia europeia que o Brasil deixa — sinal de que, mesmo no boi, a liderança de 31% do mercado mundial não é garantia contra a diplomacia comercial alheia. Para o interior paulista, onde Araras e a região concentram frigoríficos, granjas integradas e cooperativas de aves, a mensagem da coluna é direta: o boi vai bem, o frango precisa de plano — e o plano é sanidade, rastreabilidade de medicamentos e mercado alternativo antes que a China feche a porta europeia por dentro.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a coluna corrige o foco do debate. "Todo mundo olha para o boi porque a JBS caiu na Bolsa, mas o boi brasileiro não tem concorrente — os Estados Unidos estão com o menor rebanho em 70 anos e a Europa tem rebanho em queda e custo alto. O problema é o frango: a China deixou de importar e virou exportadora, com subsídio, e está tomando a Europa enquanto o Brasil explica os antibióticos. É a mesma lógica dos carros elétricos: a China entra onde havia mercado consolidado e muda o preço. O portal registra a Vaivém e traduz para a região: a granja integrada de Araras compete com Guangdong agora. Sanidade, rastreabilidade e mercado novo — ou a cota europeia vai para o frango chinês", avalia.
Os números do Usda: 62 milhões de toneladas
Produção mundial de carne bovina em 2026: 62 milhões de toneladas; Brasil, 12,4 milhões; Estados Unidos, 11,7 milhões; exportações globais, 13,8 milhões, das quais 4,3 milhões brasileiras — 31% do mercado mundial, contra 24% em 2022; a União Europeia mantém rebanho em queda, custos altos e dependência de importação.
A suspensão europeia: antimicrobianos
Em vigor desde quinta, a suspensão às carnes brasileiras vale enquanto o país não comprovar a interrupção do uso de substâncias antimicrobianas na produção animal — exigência que o bloco aplica internamente desde 2022; a comprovação é mais simples no boi a pasto do que no frango de galpão, onde antibióticos preventivos são prática corrente.
China: de importadora a exportadora de frango
Após subsidiar a avicultura para substituir importações, a China exporta frango processado a preços competitivos e ampliou muito a participação na Europa; é o primeiro concorrente com escala comparável à brasileira — e ocupa o espaço que a barreira abre.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a Argentina é o alerta dentro do alerta. "Milei conseguiu cota maior na China, abertura nos Estados Unidos e vai levar parte do que a Europa não compra do Brasil — no boi, onde o Brasil é líder com 31%. Não é competitividade; é diplomacia comercial, e a nossa está em crise com Washington e em suspensão com Bruxelas. O portal registra a coluna e observa que a liderança no boi é estrutural, mas o mercado é político; e que no frango, onde a China joga com subsídio, a política é tudo. O acordo Mercosul–UE, que o agro tanto quis, é agora a única mesa em que a barreira pode ser negociada", observa.
Argentina: a oportunista do boi
Cota chinesa maior, acesso ampliado ao mercado americano e a fatia europeia que o Brasil perde fazem de 2026 um ano de exportação argentina acima da brasileira em ritmo de crescimento — pontual, segundo a coluna, mas sinal de que a diplomacia comercial pesa mesmo onde a estrutura favorece o Brasil.
Por que o boi brasileiro não tem concorrente
Maior rebanho comercial do mundo, custo a pasto imbatível, produtividade crescente e um ciclo americano no fundo — rebanho no menor nível em 70 anos —; a Europa compra cerca de 5% das exportações brasileiras, volume que China, Oriente Médio e Estados Unidos absorvem mesmo com a tarifa de 50%.
Frango: a vantagem que a China ameaça
Milho e soja baratos, integração vertical e sanidade fizeram do Brasil o maior exportador mundial de frango; a China, com escala e subsídio, é o primeiro rival capaz de disputar preço — e a Europa, com cotas negociadas por décadas, é o campo de batalha em que o Brasil está impedido de jogar.
O interior paulista: granjas, cooperativas e frigoríficos
Araras e a região concentram granjas integradas, cooperativas de aves e frigoríficos que dependem da exportação; a barreira europeia e a concorrência chinesa exigem rastreabilidade de medicamentos e diversificação de mercados — a agenda que a coluna aponta como prioridade.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a coluna deveria orientar a resposta do governo. "O Brasil vai gastar energia diplomática para reabrir a Europa ao boi, que não precisa, e esquecer o frango, que precisa. Prove os antimicrobianos no frango primeiro — é onde a China está entrando. E use o boi, onde ninguém compete, para negociar. O portal registra os 31% do mercado mundial como conquista real e a China exportadora de frango como a ameaça de verdade; e lembra que o produtor de Araras que vê a JBS cair na Bolsa deveria olhar para a granja, não para o pasto", analisa.
A análise da coluna Vaivém, de Mauro Zafalon, sobre as barreiras às carnes brasileiras foi publicada pela Folha em 3 de setembro de 2026, data em que entrou em vigor a suspensão da União Europeia às importações do Brasil enquanto o país não comprovar a interrupção do uso de antimicrobianos na produção animal; segundo o Usda, o Brasil responde por 12,4 milhões das 62 milhões de toneladas de carne bovina produzidas no mundo e por 31% das exportações globais.