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Finanças

Visa, Mastercard e Elo disputam quem vai processar as compras feitas por robôs

Elo testa agente com a Decolar para 5 mil clientes; Visa certifica emissores e Mastercard aposta no Agent Pay; confiança e segurança são os freios.

Capa do artigo Visa, Mastercard e Elo disputam quem vai processar as compras feitas por robôs
— Foto: User:Pismire / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Visa, Mastercard e Elo disputam quem vai processar as compras feitas por robôs: bandeiras investem em infraestrutura para que agentes de inteligência artificial pesquisem, escolham e paguem sozinhos — comércio agêntico pode movimentar de US$ 3 trilhões a US$ 5 trilhões até 2030, e o Pix faz do Brasil um dos mercados mais promissores, mas executivos admitem que a autonomia total "ainda vai levar um tempo"

Foram necessárias décadas para que os cartões derrubassem a hegemonia do papel-moeda, com as bandeiras firmadas como "ponte" segura entre comprador, banco e comerciante. Na próxima era dos pagamentos, um quarto elo promete revolucionar o modelo: os agentes de inteligência artificial. Na corrida pelo comércio agêntico — em que um assistente de IA compara preços, escolhe e conclui a compra de forma autônoma —, as operadoras querem ser a camada invisível onde as máquinas vão transacionar. Mastercard, Visa e Elo deram nos últimos meses os primeiros passos concretos, mas executivos ouvidos pelo Broadcast admitem incerteza sobre quando o modelo sairá da fase experimental para se tornar tão trivial quanto o Pix. "A autonomia total — do tipo em que você só percebe a compra quando o produto chega — ainda vai levar um tempo. Isso se deve a uma questão cultural, à necessidade de construir confiança e aos desafios de segurança", reconhece Eduardo Merighi, vice-presidente de tecnologia da Elo. As informações são do InfoMoney.

Delegar a um robô o processo que o varejo levou anos para ensinar ao consumidor — buscar, escolher loja, clicar, autorizar — exige ruptura cultural; grandes mudanças na adquirência levam cerca de uma década para escala global, lembra Pablo Fourez, diretor digital da Mastercard: a tarja magnética só substituiu as máquinas manuais nos anos 1980, dez anos após ser desenvolvida. A IA encurta prazos — ChatGPT, Gemini e Claude não existiam há quatro anos —, e a adoção agêntica deve ficar entre os dois extremos; "as ferramentas estão aprendendo muito rápido e o momento de investir é agora". O comércio agêntico para consumidores deve movimentar de US$ 3 trilhões a US$ 5 trilhões até 2030, segundo a McKinsey, e o sucesso do Pix posiciona o Brasil entre os mercados mais promissores. A Elo — de Banco do Brasil, Bradesco e Caixa — ampliou para 5 mil clientes um agente com a Decolar que faz toda a jornada de compra de passagens, integrado ao WhatsApp, em que o usuário só dá a palavra final; Visa e Mastercard testaram transações agênticas em tempo real no Brasil em março. A Visa trouxe programa para certificar emissores e credenciadores, atualizando APIs de tokenização e autenticação biométrica — "ainda não sabemos quando virá para o Brasil, mas estamos nos preparando", diz Leandro Garcia —; a Mastercard concentra-se no Agent Pay, infraestrutura de segurança e autenticação, estendida a pagamentos corporativos entre máquinas com o Agent Pay For Machines.

Comércio agêntico: o que é

Agente de IA é um sistema que não apenas responde, mas executa tarefas em nome do usuário — navega, compara, preenche formulários, paga —; no comércio, significa dizer "compre a passagem mais barata para o Rio na sexta de manhã" e receber a confirmação. Para isso, o agente precisa de identidade verificável, de permissão delimitada — o que pode comprar, até quanto — e de forma de pagamento que o comerciante aceite sem ver o cartão do dono; é essa infraestrutura — tokens de agente, autenticação, limites, trilha de auditoria — que as bandeiras disputam, porque quem a controlar será a "ponte" da próxima década, como foram a do plástico. OpenAI, Google, Amazon e Apple constroem os agentes; Visa, Mastercard e Elo querem construir a estrada.

Para , editor do portal, a reportagem mostra as bandeiras defendendo a própria existência. "Cartão é intermediário — e a IA ameaça intermediários. Se o agente da OpenAI ou do Google puder pagar direto pelo Pix ou por uma carteira própria, Visa e Mastercard viram história. Por isso estão correndo para ser a camada de confiança: 'o robô pode comprar, mas só se passar pela nossa autenticação e pelo nosso token'. A Elo já testa com a Decolar; a Mastercard já pensa em máquina pagando máquina. Merighi foi honesto: a autonomia total demora — ninguém vai deixar um robô gastar sem olhar. Mas o dia em que o assistente comprar a passagem sozinho vai chegar, e a briga é sobre quem cobra a tarifa nesse dia", avalia.

Pix: por que o Brasil é laboratório

Com o Pix, o Brasil digitalizou pagamentos em escala inédita — mais de 150 milhões de usuários, bilhões de transações mensais, integração via API — e criou população acostumada a pagar pelo celular sem cartão; agentes de IA que operem sobre o Pix — o Banco Central estuda o Pix automático e por aproximação — poderiam contornar as bandeiras, o que explica a pressa delas em se posicionar aqui. O país é, ao mesmo tempo, o mercado mais promissor e a maior ameaça ao modelo dos cartões.

Elo e Decolar: o teste brasileiro

O agente da Elo com a Decolar busca voos, compara, monta a reserva e chega ao pagamento pelo WhatsApp — o usuário só confirma a última etapa; ampliado para 5 mil clientes, é o experimento agêntico mais avançado em operação no país e mostra o desenho de transição: autonomia em tudo, menos na palavra final. É o modelo de "humano no circuito" que a regulação e a confiança exigem por enquanto.

Visa: certificar quem emite e quem recebe

Em vez de nova rede, a Visa atualiza o que existe — tokenização, que substitui o número do cartão por credencial digital, e autenticação biométrica — para reconhecer transações iniciadas por agentes e certificar bancos emissores e credenciadores aptos a processá-las; é a estratégia de menor atrito, que aproveita a infraestrutura de bilhões de cartões.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o Agent Pay For Machines é a notícia dentro da notícia. "Consumidor deixando o robô comprar tênis é o caso que todo mundo imagina. Empresa deixando o agente de compras pagar fornecedor automaticamente, dentro do orçamento, é o que vai acontecer primeiro — e a Mastercard já tem produto para isso. Máquina pagando máquina, por API, sem humano: é o B2B agêntico, e é onde a eficiência é maior e a resistência cultural, menor. Um sistema de gestão que detecta estoque baixo, cota três fornecedores, escolhe e paga — a Prefeitura de Araras que migrou para a nuvem em maio vai ver isso em cinco anos. As bandeiras querem estar no meio", observa.

Mastercard: Agent Pay e máquinas

O Agent Pay cria credenciais para agentes, com autenticação do dono, limites e rastreabilidade — a base de confiança para que comerciantes aceitem compras iniciadas por IA; o Agent Pay For Machines aplica o mesmo a pagamentos corporativos autônomos, sob orçamentos pré-definidos. Fourez projeta adoção mais rápida que a do chip e mais lenta que a do ChatGPT.

Segurança e fraude: o obstáculo

Agente que compra pode ser enganado — por site falso, por injeção de instruções, por golpe — e o dano é automatizado; a autenticação do agente, a delimitação do que ele pode fazer e a responsabilidade por erro — quem paga se o robô comprar errado — são as questões que bandeiras, bancos e reguladores precisam resolver antes da autonomia total. É o que Merighi chamou de "desafios de segurança".

Cultura: aprender a confiar

O varejo levou anos para convencer o consumidor a comprar online; convencê-lo a não comprar — deixar que o assistente faça — é salto maior. A adoção deve começar por compras repetitivas e de baixo risco — recarga, assinatura, supermercado — e avançar conforme a confiança se construa, como aconteceu com o pagamento por aproximação.

US$ 5 trilhões: o tamanho da aposta

A projeção da McKinsey para o comércio agêntico B2C até 2030 equivale a uma fração relevante do e-commerce global; para bandeiras que cobram percentual por transação, estar no fluxo é questão de sobrevivência do modelo de receita — e explica investimentos em tecnologia que ainda não gera volume.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a corrida é sobre quem será invisível. "Ninguém pensa na Visa quando passa o cartão — e é exatamente isso que ela quer ser quando o robô pagar: invisível e indispensável. A Elo testa com a Decolar, a Mastercard com máquinas, a Visa com certificação. O Pix é o concorrente silencioso. O consumidor brasileiro, que adotou o Pix em dois anos, pode adotar o agente em cinco — se confiar. A reportagem do InfoMoney mostra que a tecnologia está pronta e a confiança, não. Quem construir a confiança primeiro cobra a tarifa da próxima década", analisa.

A reportagem do InfoMoney sobre a disputa de Visa, Mastercard e Elo pela infraestrutura de pagamentos por agentes de inteligência artificial foi publicada em 5 de setembro de 2026, com base em entrevistas ao Broadcast, do Grupo Estado, e em projeção da McKinsey de US$ 3 trilhões a US$ 5 trilhões para o comércio agêntico até 2030.

Fontes e referências

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