Furto de fios de cobre deu prejuízo de R$ 69 milhões aos cofres do Rio em cinco anos
'Não há manutenção que dê jeito enquanto ferros-velhos clandestinos estiverem abertos', diz o subprefeito Douglas Araújo; ação mira o receptador, e o Grande Méier é o mais afetado.
Furto de fios de cobre deu prejuízo de R$ 69 milhões aos cofres do Rio em cinco anos: a CET-Rio perdeu quase 500 quilômetros de cabos de semáforo, com custo de R$ 27 milhões, e a RioLuz, responsável pela iluminação pública, R$ 42 milhões em cabos arrancados da rede elétrica — Núcleo Integrado de Combate a Furtos e Receptação fez a primeira operação em ferros-velhos do Sampaio, desapropriou dois e demoliu um terceiro sob viaduto, "para desestruturar essa cadeia logística criminosa"
Uma operação conjunta das forças de segurança e da Prefeitura do Rio de Janeiro, com foco em ferros-velhos, busca reduzir os furtos de fios de cobre na cidade, que provocaram prejuízo superior a R$ 69 milhões aos cofres públicos municipais nos últimos cinco anos, entre 2021 e 2025. A primeira ação operacional do Núcleo Integrado de Combate a Furtos e Receptação de Cabos e Fiação de Cobre foi realizada na quarta-feira (2 de setembro). As informações são da Agência Brasil.
A Companhia de Engenharia de Tráfego, a CET-Rio, responsável pelos sinais de trânsito, registrou furto de quase 500 quilômetros de cabos de semáforo, com prejuízo de R$ 27 milhões; a RioLuz, responsável pela iluminação pública, teve prejuízo de R$ 42 milhões com cabos de cobre furtados da rede elétrica. Os agentes estiveram na Rua Alzira Valdetaro, no bairro do Sampaio, na zona norte, onde dois ferros-velhos foram desapropriados e terão a área usada no planejamento urbano para políticas públicas com foco na regularização ambiental e urbanística; a ação visa reduzir o furto de equipamentos — material de cobre dos sinais de trânsito, placas de sinalização e fiação da iluminação e da rede elétrica — que provoca transtornos na capital. "O combate também foca no receptador, para desestruturar essa cadeia logística criminosa", disse o secretário municipal de Ordem Pública, Marcus Belchior. Os agentes atuaram também na Avenida Marechal Rondon, sob o Viaduto Armando Coelho de Freitas, no mesmo bairro, onde foi demolida uma estrutura usada ilegalmente como ferro-velho. "A região do Grande Méier vem sofrendo com o furto de cabos, problema que afeta não só o trânsito, mas toda a população. Não há manutenção que dê jeito nisso enquanto ferros-velhos clandestinos estiverem abertos para receptação ilegal", afirmou o subprefeito da zona norte, Douglas Araújo, segundo quem a rede criminosa causa prejuízo de milhões aos cofres públicos anualmente.
A economia do cobre roubado: por que o fio da rua vale mais que nunca
O cobre fechou 2025 e abriu 2026 perto do recorde histórico — acima de US$ 10 mil por tonelada na Bolsa de Metais de Londres —, empurrado pela demanda de data centers, carros elétricos, redes de transmissão e pela guerra tarifária, que fez os Estados Unidos estocarem o metal; no Brasil, o quilo de cobre limpo é comprado por ferros-velhos a R$ 40 ou R$ 50, e um cabo de semáforo ou de iluminação pública, arrancado em minutos com alicate e sem risco de choque quando o circuito está desligado à noite, rende a um furtador R$ 200 a R$ 500 por noite — mais do que o dia de trabalho de um entregador de aplicativo; o resultado é uma indústria de furto que atinge todas as grandes cidades brasileiras, com semáforos apagados, ruas escuras, trens parados por roubo de cabo de sinalização, telefonia e internet cortadas e hospitais sem energia, e que o Rio quantifica em R$ 69 milhões em cinco anos só nos cofres municipais — sem contar Light, Supervia, operadoras de telecom e o custo social de cruzamentos sem sinal e ruas sem luz, que a polícia associa a assaltos e atropelamentos. A estratégia anunciada pela Prefeitura — atacar o receptador, o ferro-velho que compra o cabo sem nota e o revende a fundições — é a que funcionou em São Paulo, onde a lei estadual de 2023 obriga sucateiros a registrar origem e vendedor e permite o fechamento de quem recebe material público, e em Belo Horizonte, com cadastro obrigatório; no Rio, a desapropriação de dois ferros-velhos no Sampaio e a demolição de um terceiro sob o viaduto são o começo de uma política que depende de fiscalização contínua, porque o ferro-velho fechado hoje reabre amanhã em outro galpão. Para as cidades do interior, inclusive Araras, o problema é o mesmo em escala menor — postes de rodovia, cabos de bombeamento de água e fiação de escolas furtados —, e a solução passa pelo mesmo ponto: quem compra.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a operação do Rio acerta no alvo que a maioria das cidades ignora. "Prender quem arranca o fio não resolve — é gente pobre, muitas vezes dependente química, que ganha R$ 300 por noite e volta amanhã. Resolver é fechar quem compra: o ferro-velho que paga R$ 40 o quilo sem perguntar de onde veio e revende para a fundição. O Rio desapropriou dois e demoliu um; São Paulo fez lei; Belo Horizonte, cadastro. É política pública, não polícia. O portal registra os R$ 69 milhões — que dariam para iluminar bairros inteiros — e lembra que Araras também perde poste, cabo de bomba d'água e fiação de escola para o mesmo mercado. O ferro-velho da esquina é o elo; a prefeitura que o fiscaliza acaba com o problema", avalia.
R$ 69 milhões: como se divide o prejuízo
R$ 42 milhões da RioLuz, em cabos da iluminação pública; R$ 27 milhões da CET-Rio, em quase 500 quilômetros de cabos de semáforo — só o custo de reposição do material e da mão de obra, sem contar o efeito de cruzamentos sem sinal e ruas escuras sobre acidentes e criminalidade, que ninguém contabiliza.
O Núcleo Integrado: quem participa
Prefeitura — Ordem Pública, subprefeituras, CET-Rio, RioLuz —, Polícia Militar, Polícia Civil e Guarda Municipal, com foco em fiscalizar ferros-velhos, apreender material de origem pública, desapropriar imóveis usados para receptação e responsabilizar compradores; a operação do Sampaio é a primeira de uma série anunciada.
Sampaio e o Grande Méier: a região mais atingida
Bairros da zona norte com concentração de ferros-velhos, viadutos e galpões, onde o furto de cabos de semáforo e iluminação é diário; a demolição da estrutura sob o Viaduto Armando Coelho de Freitas e a desapropriação na Rua Alzira Valdetaro são simbólicas — e o subprefeito admite que a manutenção não acompanha o furto.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o preço internacional do cobre explica a explosão do crime. "Cobre a US$ 10 mil a tonelada, data center e carro elétrico puxando demanda, Trump estocando — o fio do poste virou commodity. Cada quilômetro de cabo de semáforo é dinheiro na mão de quem arranca e de quem compra. Enquanto o preço ficar alto, o furto continua; o que a cidade pode fazer é tornar a receptação impossível. O portal registra a operação do Rio e o modelo paulista de rastrear o sucateiro — e sugere às prefeituras do interior que copiem antes que a bomba d'água do bairro pare de novo", observa.
Receptação: o elo que a lei mira
O Código Penal pune receptação com até quatro anos, e a receptação qualificada — comercial — com até oito; leis estaduais e municipais exigem cadastro de sucateiros, registro de origem e nota fiscal; a desapropriação de imóveis usados para o crime, como no Sampaio, é instrumento urbanístico que o Rio passa a usar.
Semáforos apagados e ruas escuras: o custo social
Cruzamento sem sinal aumenta acidentes; rua sem luz aumenta assaltos; trem sem cabo de sinalização para; escola e posto de saúde sem fiação fecham — impactos que não entram nos R$ 69 milhões e que atingem, sobretudo, a zona norte e a periferia, onde a reposição demora mais.
São Paulo e Belo Horizonte: os modelos
São Paulo aprovou lei que obriga ferros-velhos a registrar origem e vendedor e permite lacrar quem compra material público; Belo Horizonte criou cadastro obrigatório e fiscalização integrada; nas duas, o furto caiu após o aperto sobre a receptação — precedentes que o Rio segue.
O interior: o mesmo crime em outra escala
Postes de rodovia sem fiação, cabos de bombas de água furtados, escolas e postos sem energia — cidades médias do interior paulista registram o mesmo padrão, com ferros-velhos locais como destino; a fiscalização municipal do comércio de sucata é a ferramenta disponível, raramente usada.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a frase do subprefeito é a mais importante da reportagem. "'Não há manutenção que dê jeito enquanto o ferro-velho clandestino estiver aberto' — é a admissão de que a cidade estava enxugando gelo, repondo cabo para ser furtado de novo. Fechar o comprador é o único caminho, e o Rio começou. O portal registra e cobra continuidade: uma operação vira manchete; cem operações viram política. Os R$ 69 milhões são o custo de cinco anos de fazer só a primeira", analisa.
Os dados sobre o prejuízo de R$ 69 milhões aos cofres do município do Rio de Janeiro com furto de fios de cobre entre 2021 e 2025 e a primeira operação do Núcleo Integrado de Combate a Furtos e Receptação de Cabos, em ferros-velhos do bairro do Sampaio, em 2 de setembro de 2026, foram divulgados pela Agência Brasil em 3 de setembro.