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Economia

Preços globais de alimentos sobem ao maior nível desde 2022 com El Niño

Índice da FAO chegou a 133,3 pontos em agosto; cereais no patamar mais alto desde maio de 2024 e óleos vegetais desde junho de 2022. No Brasil, IPCA-15 recuou 0,40% no mês.

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— Foto: Scopritore / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Preços globais de alimentos sobem ao maior nível desde 2022 com El Niño, seca na Europa e guerra no Mar Negro; açúcar dispara 11,9%

Os preços globais dos alimentos subiram em agosto para o nível mais alto desde o fim de 2022, à medida que condições climáticas adversas e perturbações provocadas pela guerra no Mar Negro aumentaram a preocupação com o abastecimento de alimentos básicos. A informação foi divulgada nesta sexta-feira (4) pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e reproduzida pelo G1. O calor extremo e a seca na Europa, a ameaça de um El Niño severo e as turbulências comerciais causadas pelos conflitos na Ucrânia e no Irã abalaram os mercados agrícolas, levando os preços dos grãos a máximas de três anos e os do açúcar a um pico de um ano.

O Índice de Preços de Alimentos da FAO, que acompanha as variações mensais de uma cesta de commodities alimentícias comercializadas internacionalmente, registrou média de 133,3 pontos em agosto, acima dos 130,8 pontos revisados de julho. É o maior valor desde novembro de 2022 — embora ainda esteja quase 17% abaixo do pico recorde de março de 2022, registrado logo após a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia.

O alerta do economista-chefe da FAO

"O aumento dos preços globais dos alimentos em agosto é um alerta de que o prêmio de risco está retornando aos mercados de alimentos: choques climáticos, tensões geopolíticas e interrupções na logística comercial estão convergindo para restringir as expectativas de oferta", afirmou o economista-chefe da FAO, Máximo Torero, em comunicado.

A expressão "prêmio de risco" descreve o sobrepreço que compradores pagam quando a incerteza sobre a oferta futura aumenta. Depois de dois anos de relativa acomodação após o choque de 2022, os mercados agrícolas voltam a precificar a possibilidade de que a produção não acompanhe a demanda — não por um único fator, mas pela combinação simultânea de vários.

Para , editor do portal, a convergência é o que torna o momento diferente. "Em 2022, o choque foi a guerra na Ucrânia. Agora são quatro frentes ao mesmo tempo: clima na Europa, El Niño na Ásia, Mar Negro e fertilizantes do Golfo. Nenhuma delas sozinha derrubaria a oferta global. Juntas, elas criam um cenário em que qualquer nova quebra de safra vira crise. É isso que o índice da FAO está capturando", avalia.

Como o índice da FAO é construído

O Índice de Preços de Alimentos da FAO é calculado a partir de cinco subíndices — cereais, óleos vegetais, laticínios, carnes e açúcar —, cada um baseado nas cotações internacionais de um conjunto de commodities representativas. Os subíndices são ponderados pela participação de cada grupo nas exportações mundiais de alimentos em um período de referência, de modo que o resultado final reflete o custo de uma cesta que espelha o comércio global real. O índice usa como base o período 2014-2016, ao qual se atribui o valor 100: os 133,3 pontos de agosto significam, portanto, que os alimentos negociados internacionalmente custam hoje um terço a mais do que naquele triênio.

Por acompanhar preços de commodities no mercado internacional — e não preços ao consumidor —, o índice funciona como indicador antecedente: variações nele costumam chegar às prateleiras dos supermercados com meses de defasagem, filtradas pelo câmbio, pelos custos de processamento e transporte e pela concorrência no varejo de cada país.

Todos os grupos subiram

Os cinco índices de referência da FAO — cereais, óleos vegetais, açúcar, carne e laticínios — subiram em agosto, o que raramente acontece de forma simultânea. O índice de cereais avançou 2,2% em relação ao mês anterior, atingindo o nível mais alto desde maio de 2024. O de óleos vegetais subiu 0,6%, alcançando a máxima desde junho de 2022.

O destaque negativo ficou com o açúcar: o índice saltou 11,9% no mês, o maior patamar desde junho de 2025. Segundo a FAO, a alta combina a menor produção na região centro-sul do Brasil — a principal área produtora do mundo — com as preocupações climáticas na Europa, onde a seca afetou a beterraba sacarina, e na Ásia, onde o El Niño ameaça as safras de cana.

Clima extremo: Europa, El Niño e as safras

As condições climáticas extremas na Europa afetaram as perspectivas para as safras de milho e beterraba sacarina, bem como a produção pecuária, informou a organização. O verão de calor recorde e chuvas escassas em partes do continente comprometeu lavouras que dependem de irrigação e pastagens, com efeito direto sobre os preços de grãos, açúcar e carne.

No outro lado do mundo, o El Niño previsto para os próximos meses alimentou preocupações com a produção de óleo de palma e açúcar na Ásia — regiões como Indonésia, Malásia, Índia e Tailândia são responsáveis por parcela expressiva da oferta global desses produtos, e o fenômeno costuma trazer seca a essas áreas.

O açúcar: quando o problema é brasileiro

Entre os cinco grupos, o açúcar merece leitura à parte porque sua alta tem origem doméstica. A região centro-sul do Brasil — que abrange São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul — concentra a maior parte da produção nacional de cana e é a principal fornecedora do mercado internacional. Quando a moagem no centro-sul decepciona, seja por clima seco na fase de crescimento da cana, seja pela decisão das usinas de direcionar mais matéria-prima para o etanol, o efeito se espalha pelas cotações globais.

Em agosto, foi exatamente isso que aconteceu: a menor produção brasileira se somou às preocupações com a beterraba na Europa e com a cana na Ásia, e o índice de açúcar da FAO saltou 11,9% em um único mês. Para o Brasil, o movimento tem dois lados — receita maior por tonelada exportada, mas pressão sobre o preço interno de um item básico da cesta alimentar.

Mar Negro e Golfo: a geopolítica dos grãos e dos fertilizantes

A escalada dos ataques no Mar Negro reduziu os embarques de grãos da Rússia e da Ucrânia, dois dos maiores exportadores mundiais de trigo, milho e óleo de girassol, em meio a uma guerra que já dura quatro anos e meio. A rota marítima que liga os portos ucranianos e russos ao Mediterrâneo é vital para o abastecimento do Oriente Médio, do Norte da África e de parte da Ásia, e cada interrupção repercute nos preços internacionais.

Ao mesmo tempo, o conflito entre os Estados Unidos e o Irã estava prejudicando o fluxo de fertilizantes para as culturas — o Golfo Pérsico concentra parte relevante da produção mundial de ureia e outros insumos nitrogenados. Fertilizante mais caro ou mais escasso significa produtividade menor na safra seguinte, o que transforma um problema logístico de hoje em um problema de oferta de amanhã.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o Brasil está em posição ambígua. "Somos um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, então preços altos beneficiam o agronegócio e a balança comercial. Mas o Brasil importa a maior parte dos fertilizantes que usa, e boa parte vem justamente de Rússia e Golfo. Se o insumo encarece, a margem do produtor encolhe e o preço final ao consumidor sobe. Ganhamos na exportação e perdemos no custo — o saldo depende de quanto cada lado pesa", observa.

Brasil: inflação em queda apesar do cenário global

O contraste com os dados domésticos é marcante. Enquanto o índice global da FAO sobe, o IPCA-15 — a prévia da inflação oficial brasileira — recuou 0,40% em agosto, com conta de luz, gasolina e alimentos mais baratos. O descolamento tem explicações: safra recorde de grãos no país, câmbio relativamente estável e a defasagem natural entre os preços internacionais e os praticados nas prateleiras brasileiras.

Essa folga, porém, pode ser temporária. A alta do açúcar no mercado internacional, puxada pela própria quebra de produção no centro-sul brasileiro, tende a chegar ao consumidor nos próximos meses. E o El Niño, além de afetar a Ásia, ameaça as safras do Centro-Norte do Brasil com seca prolongada, segundo as previsões do Inmet.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o número da FAO é um aviso para o segundo semestre. "O brasileiro está vendo o alimento cair no supermercado enquanto o mundo vê o alimento subir. Essa divergência não dura para sempre. Se o El Niño castigar o Centro-Oeste como o Inmet prevê, o Brasil vai importar a inflação de alimentos que hoje está exportando. O momento de se preparar é agora, com a inflação baixa, e não quando o índice virar", analisa.

O Índice de Preços de Alimentos da FAO é divulgado mensalmente e serve como referência para governos, organismos humanitários e mercados sobre a tendência dos preços das commodities alimentares no comércio internacional. O próximo resultado, referente a setembro, será publicado no início de outubro.

Fontes e referências

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